O sector do petróleo e do gás a montante em África está a entrar num período de ressurgimento cauteloso, impulsionado por uma combinação de investimento renovado em países produtores maduros e pelo surgimento de novos pontos de exploração, de acordo com o relatório da Câmara de Energia Africana (AEC) State of African Energy 2026 Perspectivas. O relatório, que foi lançado no início deste mês na Semana Africana da Energia 2025 na Cidade do Cabo, sublinha tanto as oportunidades como os desafios que estão a moldar o futuro energético do continente.
Os produtores estabelecidos, incluindo a Argélia, a Nigéria, a Líbia, o Egito e Angola, continuam a dominar a produção africana, mas enfrentam pressões crescentes devido ao envelhecimento das infra-estruturas e à maturação dos campos. Em contrapartida, os destinos de investimento emergentes, como a Costa do Marfim e a Namíbia, estão a atrair as atenções graças a descobertas recentes e ao potencial de crescimento elevado, sobretudo em bacias de fronteira que oferecem condições fiscais favoráveis. Os avanços na aquisição sísmica, nas tecnologias de processamento e nas capacidades de perfuração em águas profundas reforçaram os esforços de exploração, permitindo aos operadores visar reservatórios cada vez mais complexos.
No Norte de África, a exploração sob os evaporitos do Miocénico Superior na bacia do Mediterrâneo desbloqueou mais de 50 TCF de gás, enquanto campos como o de Zohr, nas águas egípcias, realçam os desafios das estruturas variáveis dos recifes. Ao longo da margem atlântica, descobertas como o campo angolano de Agogo, no Congo Fan, ilustram o potencial dos reservatórios do pré-sal, estando previstas perspectivas semelhantes ao longo da bacia costeira do Gabão e da bacia do Kwanza, em Angola. Áreas fronteiriças em terra, como a bacia de Owambo, na Namíbia, e a bacia de Rufunsa, no Zimbabué, ainda não fizeram descobertas significativas, reforçando a tendência de que as descobertas significativas estão cada vez mais ligadas à exploração liderada por infra-estruturas em áreas mais maduras.
"O sector upstream africano está a evoluir rapidamente", afirma NJ Ayuk, Presidente Executivo da AEC. "As bacias fronteiriças e emergentes apresentam um enorme potencial, mas a concretização desse potencial requer um investimento direcionado, quadros fiscais inovadores e parcerias que possam reduzir o risco de projectos tecnicamente complexos. A Semana Africana da Energia 2026 será um fórum fundamental para moldar a forma como o continente pode desbloquear estes recursos de forma sustentável."
A produção global de hidrocarbonetos em África deverá manter-se estável em cerca de 11,4 milhões de barris de petróleo equivalente por dia (MMboe/d) em 2026, prevendo-se que os novos projectos aumentem a produção para cerca de 13,6 MMboe/d até 2030. Prevê-se que o Norte de África contribua com cerca de 60% deste volume, com a África Subsariana a fornecer o restante. Embora os desenvolvimentos offshore em águas profundas estejam a ganhar terreno, a produção onshore continua a desempenhar um papel fundamental, particularmente na Argélia e na Líbia. Os líquidos representarão cerca de 63% da produção de 2026, enquanto o gás natural representa 37%, sendo o crescimento do gás impulsionado pelo aumento da procura global e pelas novas infra-estruturas de GNL em países como Moçambique, Nigéria e Senegal.
No entanto, alguns campos enfrentam riscos potenciais de imobilização de activos devido a desafios técnicos e geológicos. No Egito, as descobertas de Hoda, Notus e Satis contêm, no seu conjunto, mais de 520 milhões de barris de reservas recuperáveis, enquanto as descobertas de Jupiter na Serra Leoa e de Catchimanha em Angola representam importantes activos na margem atlântica. Na África Austral, campos como Brulpadda, Luiperd e Venus enfrentam constrangimentos comerciais devido a condições fiscais restritivas e a desafios de industrialização, salientando o papel fundamental dos quadros regulamentares e contratuais na libertação do potencial de recursos de África.
Uma caraterística crescente do panorama energético africano é o papel cada vez mais importante das empresas petrolíferas nacionais (NOC), que representam atualmente cerca de 53% da produção total. Em contrapartida, as companhias petrolíferas internacionais contribuem com cerca de 30%, o que reflecte uma mudança para o nacionalismo dos recursos e um maior envolvimento operacional dos governos dos países de acolhimento. Países como a Nigéria estão a expandir ativamente as capacidades das NOC para explorarem os principais activos de forma independente ou através de joint ventures, sublinhando a necessidade de desenvolver competências locais a par da atração de investimento estrangeiro.
Entretanto, o mercado africano de plataformas está a registar mudanças matizadas. O sector dos flutuadores está em declínio gradual, enquanto o segmento dos jackups deverá manter-se relativamente estável nos próximos três anos. A procura de navios de perfuração pode melhorar a partir do início de 2027, mas os empreiteiros enfrentam um ambiente mais competitivo, com taxas diárias reduzidas e excesso de capacidade a pressionar as margens. Na África Ocidental, os equipamentos de águas ultra-profundas de alta especificação poderão ver as taxas caírem para os 400.000 dólares, oferecendo oportunidades aos operadores de avançar com campanhas de perfuração a custos mais atractivos.
Olhando para o futuro, a próxima edição da Semana Africana da Energia, agendada para 12 a 16 de outubro de 2026, na Cidade do Cabo, constituirá uma plataforma privilegiada para debater estas tendências em profundidade, reunindo investidores, operadores e decisores políticos. O fórum irá explorar os avanços da exploração, os desafios do desenvolvimento e o equilíbrio crucial entre a atratividade do investimento e a complexidade técnica. À medida que África avança na próxima fase da sua transição energética, o AEC Outlook destaca a importância de parcerias estratégicas, quadros fiscais inovadores e iniciativas de reforço de capacidades para desbloquear plenamente o potencial a montante do continente.













