O Futuro do GNL em Moçambique Deve Gerar Crescimento Inclusivo, Não Apenas Produção

Xiluva Mondlane, especialista de campo na Baker Hughes e cidadã moçambicana, apresenta o que os cidadãos esperam dos desenvolvimentos de GNL no país numa década decisiva.

Moçambique está a entrar numa década transformadora com o reinício dos projetos de GNL em terra em Cabo Delgado, posicionando o país à beira de uma evolução económica significativa. Esperam-se cerca de 30 milhões de toneladas por ano a partir de 2030, juntamente com 100 mil milhões de dólares em receitas governamentais ao longo de 25 anos — números que poderão redefinir o futuro de um dos países mais pobres do mundo.

Estes projetos de grande escala deverão gerar pelo menos 40 mil empregos, direta e indiretamente, sobretudo durante as fases de construção, comissionamento e arranque. Para os moçambicanos — especialmente os de Cabo Delgado — isto representa uma rara oportunidade de emprego estável e melhoria das condições de vida. Contudo, o verdadeiro valor do emprego não está apenas nos números, mas também na sua qualidade e acessibilidade.

É essencial que os trabalhadores moçambicanos sejam priorizados para estas funções e não fiquem confinados a posições de baixa qualificação. Pelo contrário, deve haver investimento significativo em educação, formação profissional e capacitação para permitir que trabalhadores locais avancem para funções técnicas, especializadas e de gestão. Isto ajudaria a reduzir a dependência de expatriados, que frequentemente recebem remunerações muito superiores às dos trabalhadores locais em posições equivalentes no setor energético. Ao longo da próxima década, espera-se que os desenvolvimentos de GNL contribuam significativamente para o surgimento de uma força de trabalho nacional qualificada, capaz de sustentar o setor energético e além dele.

Os projetos de GNL exigem vastas cadeias de abastecimento, criando uma oportunidade única para empresários moçambicanos e PME participarem e beneficiarem da indústria. Como cidadã, antevejo processos de contratação transparentes e justos, nos quais as 2.500 empresas moçambicanas registadas possam competir e crescer. Mais importante ainda, deve haver uma mudança para parcerias de longo prazo em vez de contratos de curto prazo, permitindo que essas empresas cresçam de forma sustentável.

Igualmente importante é o desenvolvimento de infraestruturas locais, incluindo estradas interprovinciais e a expansão dos portos de Pemba e Nacala na região norte, que terão papel crucial no apoio a estes projetos. Há também necessidade de aumentar a capacidade do Hospital Provincial de Pemba — o maior de Cabo Delgado — que continua subdesenvolvido e sobrecarregado. Além disso, o aumento do tráfego local e internacional de passageiros impulsionará o desenvolvimento aeroportuário tanto para pessoas quanto para mercadorias. Espera-se que os aeroportos de Maputo e Pemba se tornem os mais movimentados do país, criando oportunidades para expansão da capacidade.

Uma instalação de 100 milhões de dólares operada pela Sasol em Inhassoro, no sul de Moçambique, iniciou a produção de GPL, com o objetivo de reduzir cerca de 70% das importações nacionais de GPL. Isto segue-se a 24 anos de extração e exportação de gás natural para a África do Sul através de um gasoduto de 860 km que liga os dois países. Embora os projetos de GNL em Cabo Delgado sejam sobretudo orientados para exportação, os moçambicanos têm expectativas crescentes quanto à produção doméstica e acessibilidade do GPL.

Espera-se que o gás extraído no país seja também consumido internamente, reduzindo a dependência das importações e baixando custos, ao mesmo tempo melhorando os padrões de vida e os resultados ambientais. Para assegurar distribuição eficaz de GPL, investimentos em redes de distribuição serão essenciais, apoiando expansão da força de trabalho e desenvolvimento económico local.

Ao mesmo tempo, em termos de monetização do gás natural, espera-se que o governo promova alternativas como a produção de fertilizantes, dado que o gás natural representa mais de 70% dos insumos na amónia e ureia. A agricultura continua a ser uma das bases económicas do país, contribuindo com aproximadamente 25% do PIB, mas o uso de fertilizantes permanece abaixo de 5% devido aos altos custos. Além disso, cerca de 22% dos fertilizantes utilizados em Moçambique passam pelo Estreito de Ormuz, tornando o abastecimento vulnerável a interrupções marítimas.

Investir na produção doméstica de fertilizantes não só criaria oportunidades de exportação, como também aumentaria a produtividade da terra, fortaleceria a segurança alimentar e impulsionaria o crescimento económico através de maior rentabilidade agrícola, criação de empregos e expansão do comércio agrícola.

Para as comunidades de Cabo Delgado, o desenvolvimento do GNL não é um conceito abstrato, mas uma realidade vivida que já trouxe oportunidades e desafios. A suspensão das atividades de GNL em 2021 devido à insurgência evidenciou a fragilidade da região. Embora as evidências permaneçam limitadas, analistas internacionais de segurança sugeriram que alguns habitantes locais possam ter sido recrutados para grupos insurgentes, motivados em parte por sentimentos de exclusão dos projetos de GNL e de oportunidades económicas mais amplas.

Neste contexto, é fundamental que os operadores de GNL, juntamente com o governo, consultem ativamente, respeitem e envolvam as comunidades locais nos processos de decisão que afetam as suas terras e meios de subsistência. Sem relações comunitárias sólidas, até projetos economicamente viáveis correm o risco de alimentar tensões sociais e instabilidade duradoura. Os benefícios devem ser distribuídos de forma equitativa e as comunidades devem sentir-se incluídas e não marginalizadas.

A próxima década do desenvolvimento de GNL em terra em Moçambique encerra enorme promessa — mas também grande responsabilidade. A oportunidade não é apenas para expansão económica, mas para progresso inclusivo. Isto significa criar empregos que empoderem os moçambicanos, apoiar empresas que cresçam juntamente com a indústria e garantir que as comunidades sejam tratadas como verdadeiros parceiros do desenvolvimento.

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