Apesar de produzir mais de um milhão de barris de petróleo bruto por dia (bpd), Angola tem, historicamente, importado quase 70% dos seus produtos petrolíferos refinados. Esse desequilíbrio está agora a ser revertido através de um dos programas de investimento no setor a jusante mais ambiciosos de África. Quatro projetos de refinarias, o aumento da capacidade de armazenamento de combustíveis, novas infraestruturas de exportação e uma indústria petroquímica emergente estão a transformar Angola de um exportador de petróleo bruto num centro regional de refinação capaz de abastecer os mercados internos e da África Austral.
Esta transformação é analisada no livro «O Petróleo Bruto: Poder, Reviravolta e Transformação em Angola», da autoria de NJ Ayuk, Presidente Executivo da Câmara Africana de Energia. O livro defende que as reformas institucionais de Angola não só reavivaram o investimento a montante, como também criaram a segurança regulatória necessária para atrair milhares de milhões de dólares para a refinação, a logística e as infraestruturas a jusante.
A reforma desbloqueia o investimento a jusante
As bases para a expansão a jusante de Angola foram lançadas através de reformas institucionais abrangentes. A criação da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis separou a supervisão regulatória das operações comerciais da Sonangol, melhorando a transparência, acelerando as aprovações de projetos e reforçando a confiança dos investidores. Isto foi complementado pela criação do Instituto Regulador dos Derivados do Petróleo (IRDP) — um organismo regulador dedicado ao setor a jusante. Em conjunto com reformas fiscais e um quadro de investimento mais competitivo, estas mudanças criaram as condições para a mobilização de capital a longo prazo no setor a jusante.
As reformas reforçaram também a capacidade da Sonangol de operar como uma empresa energética com foco comercial, em vez de um regulador, permitindo-lhe desempenhar um papel de liderança no financiamento de projetos estratégicos a jusante e na celebração de parcerias com investidores internacionais. Consequentemente, os projetos de refinaria, as infraestruturas de armazenamento e os projetos industriais associados estão a atrair um interesse crescente por parte de instituições de financiamento ao desenvolvimento, empresas de engenharia e capital privado que procuram oportunidades a longo prazo no crescente mercado energético angolano.
Construção de uma rede de refinação de 400 000 bpd
Angola tem como meta atingir uma capacidade de refinação interna superior a 400 000 bpd através de quatro projetos estratégicos. A primeira fase da Refinaria de Cabinda, com 30 000 bpd, já está operacional e abastece cerca de 10 % da procura nacional de combustível, enquanto uma segunda fase irá duplicar a capacidade. A construção da Refinaria do Lobito, com 200 000 bpd, prossegue, prevendo-se que venha a tornar-se uma das maiores da África Subsariana, enquanto o governo está a reestruturar os planos para a Refinaria do Soyo, com 100 000 bpd, e a expandir a capacidade da Refinaria de Luanda, já em funcionamento.
Para além de melhorar a segurança energética interna, espera-se que o programa de refinarias reduza a fatura das importações de Angola, retenha mais valor na economia local e crie novas oportunidades nas áreas da engenharia, manutenção, logística e serviços industriais. Espera-se também que os projetos estimulem o crescimento das indústrias de apoio, criando uma cadeia de valor a jusante mais integrada que se estende muito para além da produção de combustíveis.
Reforço do comércio regional
O investimento nas refinarias está a ser complementado por investimentos significativos em armazenamento, logística e petroquímica. Angola planeia expandir a capacidade de armazenamento de petróleo para 1,26 milhões de metros cúbicos até 2027, modernizar os terminais marítimos de Cabinda e Lobito e desenvolver uma indústria petroquímica utilizando matérias-primas provenientes da sua rede de refinarias em expansão.
Em conjunto com o Corredor de Lobito, estes investimentos posicionam Angola para fornecer produtos refinados a mercados regionais em forte crescimento, incluindo a República Democrática do Congo e a Zâmbia, reforçando simultaneamente o seu papel como centro energético da África Central.
«As reformas de Angola demonstram que a competitividade energética a longo prazo depende da construção de toda a cadeia de valor — desde a produção até à refinação, passando pelas infraestruturas e pelo comércio regional», afirma Ayuk.
Com a expansão da capacidade de refinação e as infraestruturas de apoio a tomarem forma, o investimento contínuo determinará a rapidez com que Angola completará a sua transição de um grande exportador de crude para um dos principais mercados de energia a jusante de África.
